Creio que escrever é uma situação crítica. Muitos o fazem porque necessitam de dinheiro. Outros o fazem porque precisam colocar no papel o que lhes transborda do corpo e da mente. Uns ainda porque só sabem fazer isso.

Creio que escrever é uma situação crítica. Muitos o fazem porque necessitam de dinheiro. Outros o fazem porque precisam colocar no papel o que lhes transborda do corpo e da mente. Uns ainda porque só sabem fazer isso.

A questão é que o mercado literário para publicações autorais no Brasil sempre foi muito fechado. Neste novo milênio, a autopublicação chegou para facilitar o processo, mas conseguir um público cativo e de número considerável ainda vai muito de acaso, sorte e, por vezes, talento.

Num país de mais de aproximadamente 208 milhões de habitantes, a tiragem básica de um livro em geral não passa de mil exemplares. Não obstante, para se tornar conhecido, o autor tem de fazer um trabalho de marketing pessoal intenso, uma labuta de formiguinha nas redes sociais, um tantinho de agrado e puxação de saco com editoras, além de angariar curtidas, compartilhamentos e leitores nas plataformas (específicas ou não) de escritores.

Deste modo, o que se percebe na grande maioria dos casos é um desejo desesperado do autor novato (seja qual for sua idade) em ser lido, mesmo que seus textos soem repetitivos, num mercado já saturado e dominado por nomes estrangeiros. O norte não é Shakespeare, Machado de Assis, Virginia Woolf, Herman Hesse, Borges, Kafka, Clarice Lispector… nada disso. A ampulheta dos neófitos aponta para o best seller romântico que vendeu como água na última lista do New York Times.

A literatura de consumo rápido é uma coisa que acompanha a própria evolução da imprensa. Dos folhetins açucarados no final do século XIX ao blogueiro que vira fenômeno antes mesmo de ser publicado: a fama repentina e a frivolidade quase sempre tiveram espaço nos principais veículos de comunicação. De alguma forma, o mercado para as editoras é terrível, puxando para o sazonal. É um cenário complexo porque não lida com a lógica dos consumidores, que sempre necessitam de roupa ou comida, mas podem adiar a compra de um livro. Por isso, não é uma decepção e tampouco novidade que as editoras se escorem na publicidade individual (mal chamada de mídia espontânea) de alguém famoso para vender exemplares. Youtubers que sequer eram escritores assinam obras editoriais, consumidas com avidez por um nicho específico, mas cujo volume financeiro é recompensador para as editoras.

Entrementes, o quadro maior que costuma escapar é outro. O que fulgura é a incapacidade de se reconhecer pequeno num mundo de gigantes. É preciso ter um desprendimento para consigo no sentido de perseguir o talento dos mestres não como imitação barata. Vide Luis Fernando Verissimo e o tanto que se distancia de seu pai Érico. Há lugar para ambos, que fique claro. E os dois são geniais, cada qual a seu modo particular. Mesmo autoras do passado que chamam atenção na atualidade trazem uma qualidade que vai além da temática aparentemente superficial. O caso mais destacado nestes dias é o de Jane Austen. Campeã de vendas nas livrarias por ter suas obras como inspiração de uma novela televisiva, a autora carrega em seu texto a força da tradição e um sentido artístico que competem em igualdade com as desventuras românticas de suas personagens.

Forma e conteúdo. Arte (a literária, aqui em pauta) é burilação, talento, criatividade, técnica, apuro, rigor, inspiração. Como o esporte, e tudo aquilo que exalta a mente e/ou o corpo, a arte é sua própria pergunta-resposta.

Contar uma história é muito simples. Contar uma história inesquecível é o desafio mais envolvente de nossa humanidade.

 

Foto: Reprodução

 

* Evandro Duarte, atuação nos segmentos de assessoria cultural, empresarial e política. Trabalhei em Assessoria de Imprensa nas prefeituras de São José e Biguaçu. Fui editor-chefe do Jornal Independente em Biguaçu. Produzi o programa Ponto de Encontro na TVN em São José, sobre cinema. Fiz assessoria para curtas-metragens, bandas locais e outros produtos culturais na Exato Segundo Produções em Florianópolis. Escrevi entre 2009 e 2017 crônicas semanais para o jornal Notícias do Dia em Florianópolis. Participo como cronista do site www.centopeia.info. Publico semanalmente no blog www.cronicasdoevandro.wordpress.com.