Cenário interno e oportunidade de empreendedorismo ajudam a explicar crescimento de 22% no número de redes de franquias, setor que em 2018 foi responsável pela geração de cerca de 1,3 milhão de empregos diretos.

Cenário interno e oportunidade de empreendedorismo ajudam a explicar crescimento de 22% no número de redes.

Quase todo mundo conhece pelo menos uma pessoa que já tenha pensado em abrir uma franquia, independente do tamanho do negócio ou do segmento pretendido. Fácil explicar isso, quando se fala de um negócio que caiu no gosto dos brasileiros e que nessa onda vem crescendo ano a ano, registrando números que parecem ‘descolados’ do comportamento dos demais setores no período de crise instalado no Brasil nos últimos tempos.

Responsável pela geração de cerca de 1,3 milhão de empregos diretos em 2018 (o que corresponde a um crescimento de 8,8% comparado a 2017), quando o assunto é faturamento ou crescimento no número de marcas, o setor também apresenta dados significativamente positivos: segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF), no ano passado o número de marcas cresceu 1%, o total de unidades em operação avançou 5%, e o faturamento total do setor chegou a R$ 174,8 bilhões, representando um incremento de 7,1% em relação a 2017.

E os dados divulgados pela ABF em relação ao primeiro trimestre deste ano mostram que as perspectivas de melhora econômica ajudam a manter o bom desempenho do setor. O crescimento nominal no período foi de 7% (novamente maior do que o verificado no mesmo período de 2018, que foi de 5,1%), e o faturamento passou de R$ 38,762 bilhões para 41,464 bilhões. E quando o comparativo diz respeito aos últimos 12 meses, o crescimento foi de 7,5% (variação de R$ 165,190 bilhões para R$ 177,545 bilhões).

Se os números nacionais impressionam, os registrados em Santa Catarina mostram que o Estado ocupa lugar de destaque no crescimento do setor. Enquanto no País o número de redes teve um incremento de 1%, por aqui este percentual chegou a 22%, passando de 447 para 546 marcas. Considerando número de unidades, que passaram de 3.480 para 4.170 (crescimento de 20% contra a média nacional, que não passou dos 5,2%) e faturamento (que em 2018 cresceu 10%, chegando a R$ 6,8 bilhões), o desempenho catarinense chama ainda mais atenção em relação ao verificado nos demais estados.

O conselheiro da ABF, Carlos Zilli, que atua no mercado catarinense, lista uma série de fatores que contribuem para que esses resultados continuem ‘descolados’ da média nacional. Para ele, um aspecto fundamental desse cenário diz respeito às características da economia local, que além de diversificada é consolidada, com grandes empresas e indústrias que garantem equilíbrio e colocam o Estado em uma posição bem mais confortável do que a verificada no restante do Brasil.

“Santa Catarina sempre andou ‘na linha’ e, graças a isso, está muito bem: temos poder aquisitivo e nível sociocultural acima da média, e percentuais de desemprego abaixo dos nacionais, o que resulta em um mercado com mais estabilidade e maturidade. É um estado que faz diferença em todos os sentidos”, diz.

Juntando-se a isso o espírito empreendedor característico do povo catarinense e a presença de shoppings consolidados nas maiores cidades do Estado, o resultado é um ambiente propício para o desenvolvimento do setor de franquias.

“Mesclando todos esses dados fica mais fácil entender o desempenho registrado em 2018. Se de um lado há cada vez mais pessoas buscando ter seu negócio próprio com segurança, no outro há o consumidor, que busca marcas fortes e estrutura bem organizada, tudo o que as franquias podem oferecer”, explica.

 

Josiane Minuzzi, analista Sebrae/SC

A analista de atendimento empresarial do Sebrae/SC, Josiane Minuzzi, reforça as colocações do conselheiro da ABF, mas destaca outros dois fatores que, segundo explica, precisam ser considerados.

“Somos, sim, um Estado com perfil empreendedor, mas notamos também que um significativo número de pessoas acabou ficando sem emprego, e visualizou no mercado de franquias uma possibilidade de empreender com um pouco mais de segurança e apoio para encarar esse novo desafio. Além disso, Santa Catarina vem atraindo investidores de outros estados, que buscam um local com melhor qualidade de vida para empreender”, diz.

 

SAIBA MAIS

Embora existam modelos para todos os gostos e bolsos, a analista atendimento empresarial do Sebrae/SC, Josiane Minuzzi explica que além do valor, há algumas questões que precisam ser consideradas. Por isso, o empreendedor deve:

  1. Escolher um setor que goste
    Mas tendo em mente que para abrir uma pizzaria, por exemplo, além de apreciar pizza, o empreendedor precisa gostar de atender os clientes, estar preparado para empreender e liderar equipes.
  2. Escolher com cuidado a rede franqueadora
    É importante conversar com outros franqueados, tanto os que estão em funcionamento quanto que optaram pela franquia e fecharam as portas. Nesse caso, questionar os motivos da saída e o que não deu certo é fundamental.
  3.  Ler atentamente a Circular de Oferta de Franquia (COF)
    Cada rede tem a sua e é na COF que o candidato a franqueador encontra uma completa descrição do negócio, o que vai orientar o contrato de franquia. É importante analisar, também, se os valores das taxas de franquia, de royalties e de fundo de propaganda estão condizentes com o que a franqueadora entrega.
  4. Seguir padrões e normas
    Todo franqueado precisa se adaptar aos processos e políticas da rede, em tudo que se refere à implantação, operação e gestão da sua unidade franqueada. A franquia é um negócio de ganha-ganha, e o sucesso de um franqueador está estreitamente ligado ao sucesso de seus franqueados.

 

Modelo de negócios minimiza riscos de investimentos

Carlos Zilli, conselheiro ABF

Com registro de índices positivos de crescimento nos últimos cinco anos – o que evidencia a segurança do setor – as franquias são alternativas de negócio lucrativas, estáveis e com investimentos iniciais variados, o que parece combinar com inúmeros tipos de empreendedor.

Mas segundo Carlos Zilli, isso não é tudo. Já há, segundo ele, uma história consolidada do setor no Brasil: a primeira franquia começou a operar no País há mais de 50 anos, e a ABF foi fundada há 32 anos, período em que vem sendo responsável por fomentar o mercado e representar os interesses do setor junto ao governo brasileiro. Atualmente, a entidade conta com mais de 1,1 mil associados entre redes de franquia, franqueados e fornecedores.

Esse apoio institucional aliado ao suporte legal proporcionado pela Lei das Franquias, sancionada em 1994, é um estímulo a mais para os candidatos a franqueados.

“Isso tudo fortalece o segmento, que hoje conta com grandes marcas e um nível de profissionalismo difícil de encontrar em pequenas empresas”, afirma Zilli.

Para ele, quando se decide por uma franquia, o empreendedor escolhe algo que já foi testado e aperfeiçoado, o que minimiza riscos e oferece um aprendizado mais rápido. Desta forma, toda a tecnologia de apoio, desenho do processo de mercado e manuais disponibilizados, além de treinamentos, suporte e acompanhamento fornecidos pelos franqueadores, se traduzem em mais tranqüilidade para os franqueados. “Assim fica muito mais fácil do que começar do zero”, afirma.

Alimentação, saúde e bem estar: modelos mais procurados

Não há como negar que as franquias são um negócio muito atrativo, mas há segmentos que se destacam, de certa forma ‘puxando’ o crescimento do setor. Dados divulgados pela ABF em relação ao primeiro trimestre de 2019 mostram que, no cenário nacional, mais uma vez a Alimentação aparece movimentando os maiores valores (R$ 10,854 bilhões), seguido de Saúde, Beleza e Bem Estar (R$ 7,662 bilhões) e Serviços e outros negócios (R$ 6,247 bilhões). Importante destacar que se o foco é comparar o desempenho (em percentuais) com o verificado no mesmo período de 2018, os setores Casa e Construção, Serviços Automotivos e Comunicação, Informática e Eletrônicos é que se destacam, com incrementos de 12,9%, 12,7% e 9,7%, respectivamente.

Santa Catarina segue o desempenho verificado nacionalmente, com Alimentação e Saúde, Beleza e Bem Estar ocupando as duas primeiras posições, com crescimento de 26,9% e 19,6%, respectivamente. Em terceiro lugar aparece Serviços Educacionais, que teve um incremento de 14,3%.

Esses números mostram que o Estado está alinhado com o mercado nacional e, para Josiane Minuzzi, do Sebrae/SC, o bom IDH catarinense deve estar puxando esses segmentos.

“A alimentação saudável, por exemplo, que é um nicho recente, está impactando no setor de alimentos. Nossa população tem, também, uma grande preocupação com qualidade de vida, que está relacionada com o setor de saúde e bem estar e o poder aquisitivo permite investimentos em beleza e educação, outros dois segmentos que se destacam”, explica.

Tanto Zilli quanto Josiane acreditam que as franquias continuarão em expansão.

“Mesmo o Brasil não tendo acompanhado o desempenho verificado no Estado, de forma geral o setor de franquias sempre andou à margem da crise, em alguns momentos de forma mais acelerada e em outros, mais lentamente. Mas é um comportamento contínuo” diz Zilli.

E mais: ele acredita que em 2019 os cenários devem se repetir, com os índices catarinenses superando os nacionais.

“Não temos ainda como precisar um número, mas a expectativa é manter o percentual verificado em 2018”, diz.

Na avaliação de Josiane, a tendência agora é de um varejo um pouco mais retraído, e nesse cenário as redes de franquia estão mais preparadas para a situação econômica, uma vez que nos últimos anos buscaram por modelos de negócio mais enxutos e uma linha de produtos mais alinhada com o ritmo de vida de seu publico alvo.

“A previsão é que ainda haja crescimento. Talvez um pouco mais tímido, mas ainda assim, positivo”, finaliza.

 

Fotos: Divulgação