O acaso foi o ponto de partida para um processo de pesquisa documental que está revelando uma parcela ainda inédita da história dos alemães no Sul do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial.

DOCUMENTOS INÉDITOS ENCONTRADOS NA ESPANHA PODEM MUDAR O CENÁRIO SOBRE OS ALEMÃES EM SANTA CATARINA DURANTE A 2ª GUERRA MUNDIAL


O acaso foi o ponto de partida para um processo de pesquisa documental que está revelando uma parcela ainda inédita da história dos alemães no Sul do Brasil – especialmente em território catarinense – durante a 2ª Guerra Mundial.

São cerca de 5 mil documentos não catalogados encontrados na Espanha e que chegaram ao Estado em agosto, por meio do projeto “História Repatriada”, uma parceria entre o Instituto Carl Hoepcke e o Laboratório de Imigração, Migração e História Ambiental (Labimha) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

“A importância desse material está no ineditismo e porque irá lançar luzes sobre a triangulação Espanha-Brasil-Alemanha entre 1942-45”, afirma João Klug, professor do Departamento de História da UFSC, vinculado ao Labimha e um dos coordenadores do projeto.

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Annita Hoepcke da Silva entre os pesquisadores João Klug (E) e Manoel Teixeira Crédito | Foto: Rinaldo Viana/Divulgação

Com pós-doutorado pela Freie Universität de Berlim, há 26 anos Klug se dedica à temática relativa à imigração alemã no Brasil e diz que nunca havia encontrado documentos de tal relevância.

“Os papéis trazem indícios que apontam para um novo cenário que pode, a partir de pesquisas futuras mais detalhadas, mudar a historiografia local e mesmo internacional da época”, complementa Manoel Teixeira dos Santos, professor de História do Colégio de Aplicação da UFSC, doutor e pesquisador na área de imigração, também vinculado ao Labimha e responsável pela análise e seleção do conteúdo.

Os cerca de 5 mil documentos reúnem diários, cartas, solicitações, documentos financeiros e correspondências oficiais da Embaixada, Consulado (Porto Alegre) e Vice-consulados (em Florianópolis e São Francisco do Sul) da Espanha entre 1942 e 1945.

Uma das mais importantes revelações até agora é a atenção e o cuidado que os espanhóis dispensavam aos alemães no Brasil: vistos como inimigos em solo brasileiro em razão da guerra, uma parcela desses alemães foi encaminhada a centros de internação e recebeu a visita pessoal do vice-cônsul espanhol, para saber como estava sendo tratada e do que necessitava.

Klug e Teixeira pontuam que informações como essa, reveladas a partir de uma análise preliminar dos registros, colocam um ponto de interrogação na até então conhecida neutralidade dos espanhóis durante a 2ª Guerra.

“O que tínhamos como certo – uma aproximação discreta entre Espanha e Alemanha no período em questão – pode ganhar um sentido diferente a partir da inclusão do Brasil neste contexto, por meio da documentação encontrada”, argumenta Teixeira.

“Outro forte indício disso é a decisão do General Franco (1892-1975), chefe do Estado Maior da Espanha, de manter esse material guardado, mas não catalogado, escondendo, assim, o teor”, completa Klug.

E ambos são categóricos em afirmar que todo esse cenário abre um campo enorme de investigação científica e acadêmica a partir de agora.

DESCOBERTA AO ACASO


Os arquivos – cerca de 40 mil documentos, condicionados em 37 caixas – foram descobertos pela professora doutora espanhola Elda Gonzales Martinez, do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC), de Madri, quando realizava pesquisas no Arquivo Central do Governo, na cidade de Alcalá de Henares, também na Espanha, em 2015.

Percebendo a importância do achado e, em visita à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) de São Leopoldo (RS), compartilhou a descoberta com os professores doutores Marcos Antônio Witt, Isabel Cristina Arendt e Maíra Inês Vendrame, todos dedicados aos estudos imigratórios. Estes, por sua vez, entraram em contato com João Klug e Manoel Teixeira, da UFSC.

Os dois foram em oportunidades diferentes à Espanha, sendo que a tarefa de analisar detalhadamente e separar os documentos mais relevantes coube à Teixeira. Foram três meses de trabalho ininterrupto, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 14h30 (horário do funcionamento do arquivo).

Além das 37 caixas, outras sete da Embaixada da Espanha no Brasil também foram investigadas. Dos 40 mil, foram selecionados 5 mil, agora digitalizados e reunidos nos 13 CDs.

Diário produzido pela mulher de interno no Campo de Concentração da Trindade em Florianópolis; à esquerda, o interno é retratado por outro colega interno

PESQUISAS E CONSULTAS


Após o cuidadoso e apurado processamento técnico, os arquivos estão disponíveis para consultas públicas presenciais no Instituto Carl Hoepcke, em Florianópolis – antes, parte do material permaneceu em exposição na Biblioteca Pública de Santa Catarina.

“Para nós, é uma grande oportunidade e honra trabalhar com instituições de ensino e pesquisa como essas que estão envolvidas nessa proposta, que também vai ao encontro ao que promovemos aqui”, afirma Annita Hoepcke da Silva, presidente do ICH, dedicado à pesquisa e preservação da história da imigração alemã.

“Esse material, com toda certeza, agrega muito valor ao acervo de nosso centro de memória, que se divide em três grandes grupos documentais principais: a história dos 190 anos de imigração alemã em Santa Catarina, o fundo documental do ex-governador Aderbal Ramos da Silva e parte relevante da história industrial e comercial da cidade, por meio da trajetória de Carl Hoepcke”, diz o superintende do ICH, Max Müller.

Os arquivos foram digitalizados na Espanha e enviados ao Brasil em 13 CDs, incorporados à plataforma Acess to Memory (AtoM), utilizada pelo ICH e adaptada para a inclusão do novo material.

Aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Florianópolis, o projeto tem o apoio da Unisinos de São Leopoldo e do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC), de Madri, na Espanha.