Não apenas em Santa Catarina, mas em todo o Brasil, o cenário que os novos governantes devem encontrar quando assumirem seus cargos passa bem longe de ser animador, combinando muito mais com o adjetivo “desafiador”.

É PRECISO REALIZAR AS REFORMAS PENDENTES E PRIORIZAR AÇÕES QUE INCENTIVEM A GERAÇÃO DE EMPREGO, DEFENDE SETOR PRODUTIVO DE SC


É sabido que as demandas da sociedade ditam os assuntos que precisam estar na pauta dos candidatos a cargos públicos.

E já é tradição: às vésperas de mais uma eleição para os cargos de presidente da república, governadores, senadores e deputados estaduais e federais, alguns temas voltam a se tornar recorrentes, surgindo primeiro nas conversas dos eleitores, para então gerar a apresentação de propostas dos candidatos aos cargos públicos nas diferentes esferas: saúde, educação, previdência, tributação e segurança pública, estão sempre entre os assuntos mais citados.

E é sabido, também, que em 2018 o Brasil vive um momento pré-eleitoral bastante atípico, no qual, mais do que nunca, as questões econômicas estão coladas aos debates políticos, criando um cenário bastante incerto e, ao mesmo tempo, rico em demandas apontadas especialmente pelo setor produtivo, buscando solucionar problemas e retornar aos patamares de estabilidade e crescimento registrados antes do início da crise.

Não apenas em Santa Catarina, mas em todo o Brasil, o cenário que os novos governantes devem encontrar quando assumirem seus cargos passa bem longe de ser animador, combinando muito mais com o adjetivo “desafiador”.

Só no que diz respeito ao desemprego, por exemplo, em relação ao segundo trimestre de 2014, o índice em Santa Catarina passou de 2,7% para 6,5% no primeiro semestre de 2018, percentuais que correspondem respectivamente a 87 mil e 150 mil pessoas sem ocupação no Estado. Sem emprego, as pessoas não consomem e, sem consumo, a economia deixa de girar.[/vc_column_text]

Nesse contexto, ampliação de vagas de trabalho, redução de isenções fiscais e de taxas de juros, controle da inflação, reforma previdenciária e estímulo à capacitação de mão de obra entram, definitivamente na pauta de demandas dos setores produtivos que mais se destacam no Estado.

Afinal, em um ambiente com potencialidade de crescimento, pensar um novo plano de governo, que valorize as especificidades produtivas e as competências regionais, representa a possibilidade de alavancar o que há de melhor em Santa Catarina.

Na avaliação de Bruno Breithaupt, presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-SC), isso demandará grandes esforços da administração pública, tantos na esfera federal quanto na estadual.

“No que diz respeito a Santa Catarina, especificamente, a expectativa é que o próximo governador trabalhe com uma máquina pública enxuta e eficiente, o que ajudará a recuperar o fôlego fiscal do estado para investir na atividade produtiva e ampliar a concessão de crédito via bancos de fomento, o que é fundamental para estimular a economia”, afirma.

De acordo com sua avaliação, a exemplo do que acontece em outros segmentos, para o setor terciário a prioridade agora é criar novos postos de trabalho e melhorar a qualidade de vida das pessoas, via crescimento da atividade econômica.

FALTA SEGURANÇA PARA EMPREENDER


Segundo Bruno Breithaupt, o momento atual ainda gera incertezas, especialmente porque o cenário político está totalmente aberto, deixando consumidores e empresários inseguros.

“Precisamos trabalhar para melhorar a produtividade da economia, dando condições para a redução geral dos juros sem que a inflação se eleve. Esse é o principal gargalo da economia brasileira: produzir mais com menos. Entendo que esta é a única solução para o Brasil voltar a ser competitivo e se destacar no cenário internacional”, afirma.

Para isso, segundo o dirigente, no cenário nacional será fundamental a implementação das reformas tributária e da previdência, gerando estímulos para os empresários e diminuindo o déficit público, além de criar estímulos para a iniciativa privada gerar empregos. Com isso, segundo afirma, será possível empreender em um ambiente mais seguro e previsível.

“Não é mais possível pagar quase 40% do PIB só de carga tributária enquanto nos demais países semelhantes ao Brasil esse percentual não passa de 30%. A reforma da previdência é essencial, pois a realidade demográfica do país, com a população cada vez mais envelhecida, não comporta um sistema, por exemplo, sem idade mínima”.

Avaliações semelhantes foram feitas pelo diretor de Desenvolvimento Institucional e Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), Carlos Henrique Ramos Fonseca – para quem a reforma previdenciária deve garantir equilíbrio às contas públicas-, e pelo presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), Daniel Leipnitz, que ressalta a importância de que os tributos pagos pelo setor não sejam impeditivos para o crescimento e para a inovação.

“Precisamos ter condições de competir globalmente, caso contrário o setor estará sempre em desvantagem em relação aos principais players mundiais”, ressalta.

Segundo o dirigente da Fiesc, embora os indicadores econômicos de Santa Catarina venham apresentado recuperação em relação à produção e vendas, os volumes ainda são inferiores aos verificados antes da desaceleração econômica, e isso demanda ações pontuais dos próximos governantes.

“Será fundamental que os novos representantes da sociedade consigam passar mais segurança para que os investimentos retornem e o crescimento possa ser cada vez maior”, explica, destacando que o sistema tributário brasileiro não condiz com as melhores práticas mundiais.

“É ineficiente e prejudicial ao investimento, e isso precisa ser revisto”, diz.

AUMENTAR A COMPETITIVIDADE LOCAL


A exemplo do que aconteceu nas últimas quatro eleições estaduais, também este ano a Fiesc elaborou e entregou aos candidatos ao governo estadual com maior representatividade a Carta da Indústria, documento construído a partir de uma consulta ao setor por meio do Programa de Desenvolvimento Industrial Catarinense (PDIC, realizado desde 2013), da Agenda de Desenvolvimento Regional e de uma pesquisa realizada junto a industriais e trabalhadores.

Na Carta, o setor (que representa 28,7% da movimentação econômica do Estado, reúne 51 mil estabelecimentos e emprega 34% dos trabalhadores catarinenses) não apenas aglutinou os principais desafios, mas também propôs estratégias de ações para desenvolvimento da economia estadual.

Segundo Fonseca, no documento são destacados oito fatores que estruturam o desenvolvimento e que, ao serem desdobrados em temas prioritários, objetivos e metas, fornecem uma grande agenda transversal. São eles: educação, capital humano, inovação e empreendedorismo, infraestrutura, saúde e segurança, internacionalização das empresas, investimentos e políticas públicas e desenvolvimento do mercado.

“Nesse sentido é muito importante destacar, por exemplo, que na pesquisa que subsidiou este documento, os empresários sinalizam como principal ponto de atenção a competitividade, tendo em vista a concorrência com bens de baixo custo, advindos das importações, especialmente chinesas”, afirma o dirigente da Fiesc.

Para ele, este é um gargalo que expõe a necessidade de melhorias na nossa infraestrutura e logística. De acordo com informações divulgadas pela Fiesc, a previsão é que os cortes em obras de infraestrutura no país serão de R$ 577 milhões, sendo que, deste montante, R$ 177 milhões serão retirados dos investimentos previstos em obras nas rodovias federais catarinenses.

“É lamentável que um estado como Santa Catarina que, mesmo com 1,1% do território nacional, sofra cortes de quase 27%. Obras importantes como a da BR 282, deixarão de receber recursos, prejudicando a logística e trazendo prejuízo para o estado”, alerta Fonseca, destacando que além da BR 282 existem diversas obras importantes que estão paralisadas e/ou com atraso, e situações como essa limitam a competitividade dos produtos catarinenses.

Trata-se, segundo explica, de uma situação que demanda intervenções nos modais de transporte, na energia, meio ambiente e na área de telecomunicações para que a indústria esteja conectada e possa reduzir seus custos logísticos.

Esse tema surge, também, na pauta de demandas listadas pelo presidente da Acate, para quem a infraestrutura do país não acompanhou o crescimento econômico visto no Brasil nos últimos 20 anos.

“É urgente atualizar e incorporar nacionalmente os principais avanços tecnológicos de escala internacional, como o conceito de indústria 4.0 e educação centrada na formação de jovens”, acrescenta Leipnitz.

Para ele, mais do que nunca o novo governador de Santa Catarina precisará ser forte na prestação de serviços à população, principalmente os relacionados à segurança pública, saúde e educação.

“É fundamental investir em ciência e tecnologia, aplicando os 2% constitucionais em pesquisa científica, para ir na contramão do baixo investimento nacional e posicionar o estado na rota do futuro”, explica.

Ou seja, novas políticas e investimentos em infraestrutura, geração de empregos, capacitação de mão de obra, saúde e reformas administrativas são as mais urgentes demandas do setor produtivo catarinense.

Junte-se a elas a missão de trazer de volta a confiança do setor privado em relação ao setor público para avaliar os grandes desafios a serem enfrentados pelos governantes eleitos em 2018.