Uma pesquisa global sobre tendências de trabalho, realizada pela Polycom, aponta que 60% da população trabalhadora do mundo já atua de forma flexível, seja em casa, em ambientes coworking ou mesmo no que poderia ser definido como uma forma híbrida, combinando atividades e momentos remotos e presenciais.

QUESTÃO PRINCIPAL É A PRODUTIVIDADE, NÃO O TEMPO QUE O EMPREGADO PASSA NA EMPRESA.


Em 2016, o Fórum Econômico Mundial, que tratou do futuro do emprego no mundo, indicou, entre outros inúmeros fatores, que cerca de 30% dos ofícios com os quais convivemos atualmente não existiam há dez, ou mesmo há cinco anos. E se os empregos são novos, não há de ser diferente com as formas de se trabalhar ou mesmo com as relações que se estabelecem entre empregado e empregador.

Uma pesquisa global sobre tendências de trabalho, realizada pela Polycom (uma das empresas líderes na oferta de soluções de comunicação e colaboração entre unidades de trabalho geograficamente dispersas), aponta que 60% da população trabalhadora do mundo já atua de forma flexível, seja em casa, em ambientes coworking ou mesmo no que poderia ser definido como uma forma híbrida, combinando atividades e momentos remotos e presenciais. E de acordo com o mesmo levantamento, o mercado brasileiro segue essa tendência, com grandes possibilidades de essa forma de trabalho crescer muito mais e em pouco tempo.

Resultado semelhante foi revelado a partir de uma pesquisa do espaço de coworking Spaces, de origem holandesa. Presente em mais de 20 países da América do Norte e Central, Europa, Ásia e Oceania, em julho de 2017 o Spaces chegou ao Brasil – mais especificamente à Vila Madalena, em São Paulo. Segundo os dados apurados, 55% dos brasileiros já atuam em um modelo de negócio que os permite exercer as atividades em casa pelo menos uma vez por semana.

Muito além de corresponder a formas diferentes de se encarar o trabalho, essa nova realidade representa a necessidade de uma mudança de cultura, exigindo adaptações por parte dos trabalhadores, gestores e também de legislação. Não por acaso, no Brasil a reforma trabalhista (em vigência desde novembro de 2017) trouxe mais clareza jurídica em relação a esse formato, e fez crescer a expectativa de que os números revelados nas pesquisas continuem evoluindo.

Se até então a Lei previa os mesmos direitos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para quem exercia o home office (ou teletrabalho, ou simplesmente a prestação de serviços fora da dependência da empresa), sem, entretanto, estabelecer as condições para sua execução, a partir da reforma, todas as obrigações do serviço feito fora da empresa passaram a ser necessariamente espe­cifica­das no contrato, deixando claro quem é o responsável pela aquisição de materiais e infraestrutura necessária ao trabalho e também a forma de reembolso, se houver esta necessidade. O princípio da lei trabalhista apregoa que o empregador seja responsável por arcar com os custos do trabalho, e é com base nessa premissa que advogados trabalhistas vem defendendo que a regulamentação das regras sobre o home office não deva trans­ferir esse tipo de responsabilidade pa­ra o trabalhador, independente do local em que ele vá exercer sua função. A principal recomendação é no sentido de que tudo seja acordado entre as partes, e que no caso de o contrato existente entre empregado e empregador não prever essa modalidade, que se faça, então, aditivos. O importante, segundo defendem, é preservar e garantir os direitos de ambas as partes.

De qualquer maneira, segundo o consultor empresarial Roberto Vilela, há uma série de questões que precisam ser revistas e uma delas se refere à forma como o trabalho é distribuído.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

Roberto Vilela
FOTO: Daniel Zimmermann

“A quantidade de horas em que passa se dedicando à empresa não será o principal fator que fará do seu profissional o mais qualificado, mas, sim, como ele aproveita cada uma delas. E essas mudanças evidenciam a necessidade de um novo perfil de gestor: cada vez mais o executivo precisa estar conectado e criar mecanismos para mensurar a produtividade, além de incentivar a equipe, mesmo que ela não esteja na sala ao lado”

NOVA REALIDADE TRAZ ÔNUS E BÔNUS


Independente da decisão de se trabalhar no ambiente doméstico ou em um espaço coworking, em ambos os casos há ganhos e limitações a se considerar. Enquanto trabalhar no ambiente doméstico possibilita mais proximidade da família, maior independência em relação a horários, privacidade (desde que bem planejada) e redução de estresse decorrente de deslocamentos em um trânsito atribulado, por exemplo, a opção pelo home office pode significar perda da privacidade pessoal, possibilidade de excesso de carga de trabalho, indefinição de horários de trabalho e lazer (se não houver planejamento e disciplina), e tendência ao isolamento social (para quem mora só).

Já nos ambientes de coworking, consideradas as diferenças entre o que cada um disponibiliza, duas das principais vantagens apontadas pelos usuários são a estrutura (tanto para trabalho online quanto espaços para reuniões privadas) e o networking.

Locadas há dois meses em um espaço recém-inaugurado na região central de Florianópolis, as sócias do 3P Studio (escritório de arquitetura, design e fotografia) optaram pelo sistema de trabalho em um ambiente coworking não apenas em razão do custo benefício, mas também em busca de um ambiente de trabalho estimulante.

“É muito bom estar sempre em contato com pessoas novas, de diferentes formações profissionais e diferentes anseios. O principal ganho é a criatividade que o espaço permite pelos diversos ambientes de descontração, relaxamento e trabalho”, explica a arquiteta Aline Cristina Pires.

Segundo ela, até o momento os resultados estão se superando, e apesar de algumas situações que podem ser consideradas um inconveniente para quem está começando, a experiência vale a pena.

“Acredito que o único problema depende do modo de trabalho de cada pessoa. O silêncio não acontecerá em 100% do horário de trabalho, é inevitável que haja uma conversa de alguém novato um pouco mais alto que o convencional, um atendimento de telefone, mas nada que atrapalhe. Cada em desenvolve o foco necessário, como acontece em qualquer escritório convencional”, avalia.

Opinião recorrente é que ambos os modelos trazem, em conjunto, a certeza de que a forma de se trabalhar mudou e que, mais do que nunca, na era da conecti­vidade, compartilhamento e praticidade são indispensáveis para empresas e profissionais.

DICAS PARA IMPLANTAÇÃO DE HOME OFFICE


 
  • Crie uma política interna para definição de todas as questões que envolverão este formato de trabalho.
  • Especifique em um contrato quem vai arcar com os custos de infraestrutura e equipamentos necessários para a atividade, como internet e computador.
  • Tenha índices de mensuração do trabalho por produtividade e não pela quantidade de horas.
  • Oriente o colaborador em relação à segurança do trabalho, e que ele é responsável por manter um local que proporcione a si próprio bem-estar ou comodidade para executar as tarefas.
  • Realize feedbacks periódicos e, se possível, traga o profissional para dentro da empresa de tempos em tempos. O mantenha informado sobre as decisões da companhia que tenham impacto na sua rotina e que o façam se sentir parte do negócio.
  • Mantenha canais de contato sempre abertos, seja por e-mail, aplicativos de mensagens instantâneas, chamadas de vídeo.
 
  • Tire todas as suas dúvidas relacionadas ao modelo de trabalho antes de adotá-lo. Verifique de quem será a responsabilidade sobre o pagamento da estrutura, como será realizada a mensuração do trabalho, em quais horários deve estar à disposição da empresa.
  • Tenha um local adequado de trabalho. De preferência, um ambiente dedicado apenas a isso, com mesa bem iluminada, materiais organizados e de fácil acesso.
  • Crie uma rotina de trabalho, da mesma forma que faria se tivesse que ir até a empresa. Estabeleça horários e não misture com sua rotina nem atribuições pessoais.
  • Crie um controle de tarefas: pode ser em lista, na sua agenda, com um mural. É importante anotar e visualizar tudo o que se deve realizar.
  • Antes de começar e terminar o dia, tire alguns minutos para avaliar o que fez no período anterior, como pode melhorar o desenvolvimento das tarefas e o que precisa realizar naquele dia.
  • Assim como é fundamental para o gestor, a comunicação também precisa fazer parte da rotina do profissional. Esteja, sempre que possível, em contato com a equipe alocada na empresa, mantenha-se online nas plataformas utilizadas para troca de mensagens.

ESPAÇO COMUM, VANTAGEM PARA TODOS


“A Fábrica Working Bar” é um dos coworkings que apostam na necessidade de redução de custos das empresas.

A Fábrica Working Bar
FOTO: 3P Studio

Localizado na travessa Albertina Ganzo, na região central da Capital, A Fábrica Working Bar foi idealizado pelos jovens empreendedores Antônio Schappo Neto e Arthur Lawrence Xavier, para funcionar como um ambiente diferenciado, que reúne uma ‘fábrica’ de networking e escritórios compartilhados, mas não apenas isso: os clientes e frequentadores têm, também, à disposição, cervejas artesanais, café e um lugar ideal para trocar ideias.

A proposta é inovar em cada detalhe e serviço. Aberto há cerca de três meses, o working bar funciona em um prédio de tijolos aparentes, de 360 m² divididos em dois pisos. No andar superior, um confortável ambiente reúne estações de trabalho funcionais e flexíveis, no modelo de um escritório compartilhado, que disponibiliza aluguel de espaço de trabalho, salas de reuniões, escritório virtual e até caixa postal.

Já no nível da rua, totalmente visível para quem passa pelas calçadas, um ‘bar’ com um cardápio completo de cafés, salgados e doces (inspirado na gastronomia espanhola), e claro, cerveja artesanal, disponível em sistema de self-service  por cartão de fidelidade. A decoração é descolada, muito aconchegante, com mesas e sofás e uma ampla visão proporcionada por grandes janelas de vidro.

“Buscamos proporcionar uma atmosfera agradável e capaz de fazer com que o cliente se sinta à vontade para trabalhar com alta produtividade no nosso coworking e então, mais tarde, descer para relaxar e tomar um café ou uma cerveja em nosso café/bar aberto ao público”, explica Antônio.

Desde que iniciou as atividades, A Fábrica vem chamando atenção não apenas de pessoas interessadas no novo conceito, mas também de vizinhos e de quem circula pela região, atraídos pelo projeto de visual moderno. Em média, o espaço tem recebido cerca de 30 pessoas por semana para utilizar as estações de trabalho.

Responsáveis pelo projeto, as sócias do escritório de arquitetura 3P Studio, são, também, usuárias da estrutura. “Desde o início do processo nós já tínhamos a necessidade e interesse em estar locadas nesse ambiente de trabalho. Estamos indo para o nosso segundo ano de escritório, porém nunca tivemos um espaço físico só nosso, e a possibilidade de projetar um ambiente compartilhado para em seguida usufruir desse espaço, foi, para nós, uma oportunidade incrível”, explica a arquiteta Aline Cristina Pires.

Sintonizadas com a proposta de trabalhar e ambientes compartilhados, as sócias citam como vantagens a localização central, a estrutura e o custo benefício – segundo Aline os gastos são infinitamente menores do que os que teriam em um escritório próprio -, e estão satisfeitas com os resultados que vêm registrando.

“Mas o principal motivo foi o networking. A possibilidade de trocar experiências com pessoas de diferentes formações é estimulante, e somos constantemente motivados a ajudar e buscar ajuda. É uma cultura colaborativa e enriquecedora”, conclui Aline.

CRIATIVIDADE À DISTÂNCIA


Quando surgiu em 2013, a startup Playmove, de Blumenau, tinha uma equipe própria para o desenvolvimento dos jogos educativos da sua plataforma PlayTable. Porém, com a mesa digital ganhando espaço em todo o país – já está presente em mais de mil instituições de ensino – e um número cada vez maior de desenvolvedores interessados no assunto surgindo, a empresa buscou um novo modelo de atuação. Estabeleceu um programa de parcerias, que permite aos profissionais criarem os seus jogos do local onde estão, contando com a curadoria da startup.

Para dar conta de atender os requisitos do produto final – games são educativos e precisam seguir a matriz curricular de ensino – foi criado um método de trabalho: a empresa mantém contato permanente, normalmente virtual. E os jogos passam por aprovação da empresa até serem lançados.

Por meio do projeto, já foram lançados 25 jogos de parceiros para a mesa digital e outros 40 estão em desenvolvimento. Atualmente compõem a rede da startup 23 parceiros diferentes, que juntos envolvem diretamente mais de 200 profissionais espalhados pelo Brasil e alguns de fora do país. Parte do aporte de investimento de R$ 2,6 milhões recebido pela Playmvoe por meio do Fundo Criatec 3 será usado para movimentar a rede de desenvolvedores de jogos, com a participação em eventos e divulgação da plataforma PlayTable. Com isso, a expectativa é que mais negócios se consolidem e novas oportunidades surjam para os profissionais do mercado.

Marlon Souza, CEO da Playmove
FOTO: Reprodução

Entre 2015 e 2107, o designer de games Ricardo Lopes atuou com a equipe da Playmove. Ao optar por seguir a carreira fora da empresa, viu no Programa de Parceiros uma oportunidade de continuar no segmento mesmo sem vínculo empregatício com a empresa.

Para Lopes, as vantagens desse modelo de trabalho estão não só na remuneração, que acontece por percentual de vendas, mas também em poder atuar de onde quiser, sem a necessidade de estar diariamente dentro de uma empresa.

“Não precisamos nos preocupar com as questões de marketing e vendas, porque a empresa desta parte do processo, e podemos ficar 100% focados no que sabemos fazer melhor: os jogos”.

De acordo com Marlon Souza, CEO da Playmove, antes de entrar em desenvolvimento todas as ideias passam pelo crivo de educadores, para garantir que o jogo terá aplicação eficaz no ambiente escolar e um objetivo pedagógico claro.

“Com o número de PlayTables que já temos no mercado e com o aumento das vendas, fica logo claro para o parceiro que ele terá um retorno interessante do seu investimento na produção de um jogo educativo, muito melhor do que teria em outras plataformas como, por exemplo, se desenvolvesse jogos para smartphones.”.