Podemos afirmar com convicção que os anos fizeram bem aos que creem nalgum ocultismo que é, também, uma forma pioneira de ciência. Se lhes faltam provas cabais, sobram aos seus seguidores um perene rio de criatividade.

 

Se com a história temos movimentos transformadores, imagine com a ficção. Ou, vá ainda mais longe e flerte com a fantasia. Mesmo que os conceitos e as tradições mudem apenas em formato, percebemos significativas transições morais. Nada mais justo, portanto, que a ética esteja ligada ao tempo-histórico, o que nos permite reinterpretar lugares-comuns com a ousadia necessária desse bicho-inventor que é o ser humano.

Peguemos, por exemplo, as questões vinculadas à bruxaria e/ou magia. Podemos afirmar com convicção que os anos fizeram bem aos que creem nalgum ocultismo que é, também, uma forma pioneira de ciência. Se lhes faltam provas cabais, sobram aos seus seguidores um perene rio de criatividade. Nestas margens fantásticas, alguns se frustram, claro, como Nicolas Flamel que tentou sem sucesso criar uma pedra filosofal ou o elixir da vida longa. A alquimia de Flamel, considerada por muitos como uma protociência, é apenas uma das muitas possibilidades da manipulação de elementos reais sob um viés sobrenatural.

Mas tamanha atenção sempre vem acompanhada dalguma inveja, porque toda história tem seu lado triste. Logo, não convém esquecer da perseguição às bruxas durante a Inquisição. Não por acaso, tal período é considerado uma Idade das Trevas, justamente pela falta de visão dos inquisidores e não daqueles que, erroneamente, eram considerados ameaças à sociedade. Eis o aspecto vil da tradição, àquela época sob a jugo da Igreja Católica que deve ter se esquecido que os primeiros gentis senhores a visitar Jesus foram, justamente, Três Reis Magos. Publicado em 1486 ou 1487, o Malleus Maleficarum (O Martelo das Bruxas) foi o livro que orientou essa horrenda caça aos hereges. A publicação revela o poder da palavra escrita e sua influência no dia a dia de pessoas comuns.

E é também a partir da escrita que damos com as atuais interpretações deste misticismo que tanto espanta/encanta a sociedade ao longo de gerações. Na fantasia, encontramos um espaço muito bem reservado à bruxaria, com autores sensíveis àquilo que a ciência não tem outra coisa a fazer que não seja refutar. Com o escritor britânico J. R. R. Tolkien e sua trilogia O Senhor dos Anéis, as histórias de magos, hobbits, elfos e derivados ganharam a seriedade de um professor universitário e estudioso de línguas. Já pelas mãos da também britânica J. K. Rowling, os sete livros sobre um bruxo em crescimento chamado Harry Potter atualizaram e ampliaram a ideia da magia enquanto parte de nossa própria tradição. E não é por acaso que um de seus personagens mais indispensáveis, o diretor Alvo Dumbledore, afirma categoricamente que as “palavras são (…) nossa inesgotável fonte de magia. Capazes de formar grandes sofrimentos e também de remediá-los”. Eis a autora conversando diretamente com o leitor, explicando-lhe que, desde sempre, em menor ou maior proporção, somos todos bruxos.

As verdades de bruxas e magos são calcadas naquilo que temos de mais especial: a capacidade de sonhar. E nem é preciso buscar a vassoura enfeitiçada atrás da porta para ir tão longe assim.

Foto: Reprodução

 

* Evandro Duarte, atuação nos segmentos de assessoria cultural, empresarial e política. Trabalhei em Assessoria de Imprensa nas prefeituras de São José e Biguaçu. Fui editor-chefe do Jornal Independente em Biguaçu. Produzi o programa Ponto de Encontro na TVN em São José, sobre cinema. Fiz assessoria para curtas-metragens, bandas locais e outros produtos culturais na Exato Segundo Produções em Florianópolis. Escrevi entre 2009 e 2017 crônicas semanais para o jornal Notícias do Dia em Florianópolis. Participo como cronista do site www.centopeia.info. Publico semanalmente no blog www.cronicasdoevandro.wordpress.com.