Visivelmente impactado pelo desaquecimento da economia, o setor da construção civil começou a se movimentar antes ainda do início de 2019. Entender as tendências de mercado é caminho para lançar projetos com maior apelo de vendas.

Entender exatamente as tendências de mercado é caminho para lançar projetos com maior apelo de vendas.

Visivelmente impactado pelo desaquecimento da economia que o Brasil enfrentou nos últimos anos, o setor da construção civil começou a se movimentar antes ainda do início de 2019, animado, sobretudo, pela expectativa da recuperação econômica. E mesmo que o mercado esteja apresentando, ainda, um ritmo menor do que o esperado, o segmento vem reagindo positivamente, obviamente ainda com cautela, mas buscando, ao mesmo tempo, diminuir estoques e viabilizar lançamentos que atendam expectativas dos prováveis – e ansiosos – clientes.

Paulo Toledo, CEO da CIA Inteligência Imobiliária
Foto: Divulgação

Segundo Paulo Toledo, especialista em mercado imobiliário e sócio diretor da CIA Inteligência Imobiliária – empresa que atua na otimização de vendas de imóveis no lançamento e, principalmente, no pós- lançamento -, o que era uma expectativa no final de 2018 evoluiu para uma perspectiva real de melhora, sem, entretanto, corresponder a uma explosão do mercado semelhante àquela verificada no período entre os anos de 2008 e 2012.

“Nos últimos cinco anos, a indústria parou de lançar novos produtos pois os estoques estavam muito altos e só começaram a diminuir em 2018. Até o final deste ano e ao longo de 2020 o mercado deve ser crescente, principalmente após a aprovação da reforma da Previdência, que deve permitir a melhora da confiança do consumidor e a entrada de muito capital internacional no segmento imobiliário”, explica.

Entretanto, Toledo alerta para a necessidade de estabelecer estratégias e processos de gestão apurados para que esse processo aconteça de forma equilibrada, uma vez que o ‘boom’ imobiliário fez com que muitas empresas crescessem sem estrutura e planejamento, fator determinante para a crise que se instalou.

Fundador e CEO da Datastore (empresa especializada em pesquisas para o setor imobiliário), Marcus Araújo defende que a recuperação do segmento depende de uma cadeia de acontecimentos, que para ele também se inicia com a aprovação de reformas previstas pelo governo, a partir das quais deve ser possível observar o retorno dos postos de emprego e do poder de compra.

“Mas precisaremos, também, de um PIB de pelo menos três pontos positivos. Desta forma, o retorno das vendas deve acontecer, mas de forma lenta e gradual”, diz.

Para Araújo, no mercado imobiliário não existem mudanças bruscas, e o último ciclo positivo (2008-2012) vinha sendo “preparado” havia cinco anos. Por isso, conhecer tendências e identificar demandas é tão importante para o segmento.

Nesse contexto, ganham força questões relacionadas especialmente às expectativas dos consumidores, e os dois analistas alertam que boa parte delas acabam surgindo no “vácuo” que existe entre o lançamento e a entrega de um projeto.

“A burocracia brasileira impacta no custo e na velocidade de entrega dos produtos imobiliários em todo o País. Não temos, por exemplo, como atender uma demanda atual se em alguns casos um produto pode demorar até quase dez anos do momento da aquisição de um terreno à entrega do empreendimento”, explica Toledo.

Segundo ele, a tecnologia aumentou a velocidade das mudanças, um produto pode estar desatualizado em cinco ou dez anos e, desta forma, vender imóveis em estoque fica cada vez mais difícil.

“Seria mais ou menos o equivalente a um carro 2014, sem uso, ser negociado em 2019, com preço atual”, exemplifica Araújo.

Marcus Araújo, CEO da Datastore
Foto: Alessandro Couto/Divulgação

Pesquisas apontam cultura de consumo

Qual seria, então, a alternativa? Identificar as demandas e adaptar-se às necessidades dos consumidores para não lançar produtos errados. Segundo alerta Paulo Toledo, não existe um ‘produto padrão’, uma vez que as demandas são distintas (variando de acordo com a cidade, ou mesmo com o bairro), a necessidade de diferenciais depende da cultura de consumo de cada lugar e em determinados mercados a demanda existente é por produtos compactos e em outros, por produtos premium.

Mesmo assim, com amparo nos dados apurados pela Datastore, Marcus Araújo explica que há uma mudança significativa nas metragens dos imóveis mais procurados, que atualmente estão mais ‘enxutos’ (cerca de 15% a menos na metragem total dos apartamentos e 50% na redução da área de lotes, inclusive em condomínios fechados). Mas há um detalhe fundamental: não há mais espaço para produção em série e os imóveis precisam de ‘alma’.

“Estamos vivendo na era dos dados, e tudo o que se vai fazer no mercado imobiliário requer pesquisa Por isso, esse enxugamento de área não pode ser feito de maneira aleatória. O mercado aceita, por exemplo, uma redução na área dos quartos, mas não na suíte principal, a área de serviço pode ser menor, mas a sacada não deve perder espaço, e as áreas sociais devem ser generosas”, diz.

Com base nas informações que dispõe, Araújo acredita que quem lança empreendimentos novos e de acordo com as demandas acaba surpreendendo o mercado e pode alcançar melhores resultados.

“Ideias antigas não serão mais absorvidas pelo consumidor, que agora busca por coisas novas, facilidades da nova economia digital no mercado imobiliário”, finaliza o especialista.